“BI”, como um acrônimo que define uma tecnologia, mudou de significado? Morreu sua tradução clássica e significa outra coisa? Ou pior ainda, não significa mais nada?

Como vocês devem ter notado no post A Culpa é do Cubo, minha grande amiga Gisele comentou:


Quando aparece um problema para analisar ou resolver, ou ter uma visão do que está acontecendo com um processo, eu faço meu BI em cima dos dados crus que coleto na base de dados e depois de fazer todos os cruzamentos de dados e conseguir obter a resposta e fazer uma análise do cenário, aí sim, penso que esse resultado e essa análise poderá ser insumo para um Cubo(…)


Naquela mesma semana eu fui ao aniversário de outro grande amigo, que fez um comentário análogo. Eu não aguentei e perguntei:


  • E o que é que você chama de BI, hoje em dia?

  • De visualização de dados.


Uau.

Uau o caramba! Eu me recusei a ver isso por anos, mas a verdade é que o mercado de ferramentas de visualização de dados, que é um cisco da cadeia de valor de soluções de Inteligência de Negócios, tanto bateu, esbofeteou e massacrou a expressão “BI”, que ela mudou de significado!

Aplicando a “caneta des-hype-zadora” ao que se fala hoje em dia, temos um pequeno dicionário da língua do BI:

  • “Meu BI faz isso.” Tradução: “minha ferramenta de visualização de dados faz isso”;
  • “Instalei um BI no meu departamento”, ou seja, estou tabulando dados com Excel (hehe, ok, foi maldade – mas você entendeu o ponto, não é?)
  • “Preciso comprar o BI”, ou seja, preciso ter uma ferramenta para visualizar os dados que eu quero investigar.

Ah, Fábio, dirão vocês, seu preciosismo teórico é uma besteira. O nome não importa.

É verdade, concordo, eu sou um cara preciosista e nomes não importam.

Almoço de Hoje: Plantas e Bichos Mortos

Faça um experimento. Convide alguém para jantar falando assim:


“Oi, vamos mastigar e engolir no começo da noite um alimento à base de plantas maceradas e gaseificadas com fermentação de levêdos a partir de amidos e glicose, leite coagulado e fungos, tudo queimado pelo calor de árvores incineradas dentro de um buraco de pedra?”


É ruim, hein?! Acho que nem o Dr. Sheldon Cooper encararia essa numa boa…

Vamos trocar aquelas coisas que não importam, os nomes, por outras coisas que não importam, outros nomes? ;-)


“E aí, topas jantar uma pizza de funghi, em forno à lenha?”


Agora sim, né não? Quem recusaria uma pizza, ainda mais de cogumelo? (Bom, eu não recusaria, mas pensaria duas vezes – cogumelo não é a minha praia…)

Então vamos parar com essa relativização frescurenta. Não sou contra a evolução da língua, até porque ela muda sem dar a menor peteca para a opinião de ninguém, muito menos a minha, mas palavras e nomes importam sim, e muito.

Show Me The Numbers

Sendo um cara da Ciência, o mínino que eu precisava fazer era olhar ao meu imediato redor. Por isso eu aproveitei a confusão da semana passada e deixei uma enquete simples no blog:

Fale aí, eu quero saber: o que é que você entende por BI?
Fale aí, eu quero saber: o que é que você entende por BI?

Nem fiz muita propaganda. Apenas pedi para um ou outro conhecido ir lá responder, por curiosidade minha mesmo. Eis os resultados:

A voz do povo é a voz da média.
A voz do povo é a voz da média.

Ora vejam só. A maioria acha que é “uma área do conhecimento”, seguido de perto por “Uso de dados para administração” mas, que curioso, temos um voto para “é uma ferramenta”!

Se eu fosse um cara com uma vontade louca de achar justificativa para minhas opiniões, eu generalizaria esse resultado e descartaria aquele único voto como uma parcela ignorante da minha audiência – como aquele cara que detesta o que eu escrevo, mas lê só para me ver escrever bobagem e pagar mico.


Sim, é feio, mas admito: eu faço isso. Só que eu nunca vou contar que sites. ;-)


Só que eu não sou esse tipo. Eu gosto de testar minhas hipóteses até conseguir descartá-las. Só quando eu não consigo é que eu começo a ponderar a possibilidade de eu estar certo.

Assim sendo, o primeiro fato a ser levado em consideração para entender essa minúscula pesquisa é: quem lê meu blog acaba necessariamente tendo alguma identificação comigo. Logo, o resultado é mais que natural: é esperado. Muito provavelmente, as mesmas perguntas colocadas com outras palavras, em outro contexto, teriam respostas distribuídas de maneira diferente. Logo, de saída, este resultado não prova nada, a não ser que estamos entre os nossos. ;-)

Estando consciente dessa tendência a se auto-confirmar, ou viés de confirmação, e de acordo com um livro muito bacana chamado Como Medir Qualquer Coisa, esse único ponto, dentro do pequeno universo de respondentes, tem um peso muito grande. Ele indica que existe uma parcela significativa de pessoas que entende que Inteligência de Negócios é, sim, uma ferramenta. Só isso bastaria para concluir que o significado do termo mudou, ou no mínimo está ainda mais nebuloso que antes.

Mas podemos ir um pouco além e considerar que ele significa ainda mais. (Ou seja, que eu estou ainda mais equivocado que eu esperava.)

A pesquisa aceitava até duas respostas por participação. Então, um participante poderia escolher quaisquer duas combinações de respostas.

Agora, olhe de novo a pesquisa. Releia as opções com atenção. Notou algo? Veja estas declarações:

  • O uso de dados para administração pode ser interpretado como Uma área do conhecimento;
  • A visualização de dados pode ser interpretado como Uma ferramenta.

Você concorda ou discorda das comparações acima? Agora veja essas outras:

  • A visualização de dados pode ser interpretado como Uma área do conhecimento;
  • O uso de dados para administração pode ser interpretado como Uma ferramenta.

Para mim é fácil concordar com estas afirmações. E você? Ainda temos uma última comparação possível:

  • O uso de dados para administração pode ser interpretado como A visualização de dados;
  • Uma ferramenta pode ser interpretado como Uma área do conhecimento.

E agora? Para mim, é mais difícil concordar com estas frases que com as combinações anteriores.

Essas sensações de que as coisas “se casam” ou “não batem” indicam que, nas nossas cabecinhas pensantes, há uma correlação intuitiva entre “visualização de dados” e “ferramenta”. Logo, é razoável supor que quem marcou “visualização” tende a ver BI mais como uma ferramenta que como uma ciência.

Aceitando essa equivalência intuitiva como algo real, podemos usá-la para transformar as quatro categorias que receberam votos em duas. E isso faz com que o resultado mude um pouco:

Um ponto bem maior do que parece.
Um ponto bem maior do que parece.

Conclusão: Vamos Bater no Autor!

Bom, meu blog, minhas encanações. Eu sempre escrevo para mim mesmo, antes de mais nada, e torço para que você ache algum valor nestas mal-traçadas. A pergunta do dia era “o termo Inteligência de Negócios, ou BI, mudou de significado?”

Em primeiro lugar, qual era o significado original? Existiu uma primeira definição?

Sim: em 1958 apareceu um artigo chamado A Business Inteligence System, publicado por um pesquisador da IBM. Você pode visitar o link e ler o abstract, ou até mesmo comprar o paper (US$33,00 – carácoles!), mas em resumo ele propõe um “sistema de inteligência de negócios” que visava montar um processo para capturar o conteúdo de documentos (em papel mesmo, era 1958) daí, automaticamente, produzir um resumo (abstract) e distribuir o conteúdo para os devidos “pontos de ação”.

Isso é só um tantinho distante da nossa idéia contemporânea, tal como consta na Wikipedia:


Inteligência de negócios (…) refere-se ao processo de coleta, organização, análise, compartilhamento e monitoramento de informações que oferecem suporte a gestão de negócios.


A minha definição vai na mesma direção, mas pelo lado da Ciência:


Inteligência de Negócios é a aplicação do Método Científico para administração de uma organização.


Mesmo assim, existe uma palavra-chave comum entre todas elas: processo.

Então sim, existe uma idéia original associada à expressão Business Intelligence: um processo de coleta e análise de dados.

Portanto, se em poucos dias, eu consigo coletar um resultado que, levados em consideração os vieses presentes, ainda mostra um número não-desprezível de opiniões dizendo que BI é, sim, uma ferramenta, não nos resta outra opção a não ser aceitar que essa mudança aconteceu. Mesmo que não seja massiva, avassaladora, o acrônimo BI perdeu parte do seu significado original e hoje é usado com outro significado, com uma alta frequência.

Pior ainda: dado o altíssimo nível dos meus amigos, eu diria que a mudança atingiu massa crítica, e virou senso-comum, até.

Resultado? Ora, se BI não é mais o que BI costumava ser, precisamos de um novo nome para o que BI era e não é mais.

E qual usar? BA? Analytics? BigData? Data Mining? Data Discovery? Business Discovery?

Affff… :-(

Uma definição é assim tão importante? Por quê? Não podemos só chamar tudo de “uga” e viver felizes para sempre?

Uga Uga Uga Uga Uga Uga Uga Uga Uga.

Traduzindo: não.

Definições são parte básica de qualquer coisa na vida de um ser humano. Pai e mãe são definições, das fortes, aliás. Amigos, emprego, comida, felicidade, problemas. Problema não é o mesmo que felicidade, que não é o mesmo que amigo etc. etc. etc.

Se não sabemos nem sequer do que estamos falando, pombas, estamos falando de alguma coisa?

A minha proposta é simples: ao vinagre com essa barulheira, com todas essas buzzwords! Vamos repensar nossas organizações do nosso ponto de vista, do trabalho que temos a fazer, dos problemas que temos a resolver, e rejeitar o ponto de vista de quem está do lado de fora, tentando nos ganhar pelo impacto, pela surpresa, pela forma.

Vamos focar no conteúdo ao invés de no contorno.

Se BI, em 2017, quer dizer “ferramenta de visualização de dados”, temos que decidir: ou a antiga definição não servia para nada, e por isso morreu e agora tudo é só visualização de dados, ou existe algum valor a ser tirado de todos os dados que nossas organizações produzem e precisamos de um nome para isso.

Nem pense em BigData! Muito menos em Analytics!

Na minha opinião, na minha humilde, modesta e irrelevante opinião, essa expressão é Inteligência de Negócios. Porque eu me recuso a igualar uma expressão que junta coisas tão grandes e abertas como inteligência e negócio a um mero pacote de software. Ainda mais levando em conta que inteligência, em si mesmo, é um campo vastíssimo de debate e estudos. Me recuso a diminuir uma das expressões máximas do que é ser um Humano a uma mera buzzword de uma indústria, não importando o tamanho dessa indústria. Nunca vai ser maior que “inteligência”.

E só para não deixar negócio no vazio, vamos lembrar que se não fossem os negócios não teríamos Capitalismo, e sem o Capitalismo ainda viveríamos em cavernas. Nada do que o Capitalismo criou, desde toda tecnologia que hoje nos cerca até a imprecedente redução da pobreza da nossa era, existiria se não fosse a instituição humana, natural, de trocas voluntárias, de negociar, de fazer negócios.

E daí que estão chamando uma rosa por outro nome? Ela ainda é uma rosa.


BI morreu.

Vida longa a BI!!


E daí que estão chamando uma rosa por outro nome? Ela ainda é uma rosa.

Mas estou aberto a sugestões, claro.

Até a próxima. ;-)

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2 comentários sobre “BI Morreu, Vida Longa ao BI!

  1. Como eu fui citada nominalmente, vou falar!!! Quando eu eu disse (escrevi) “eu faço o meu BI” estava querendo dizer que “eu estava usando a minha Inteligência para a partir de um processo de coleta, classificação, organização, análise, comparação, etc, etc, utilizando Métodos Científicos, ferramentas, tecnologia, papel de rescunho, lápis, etc, etc, etc…..” bom, como eu sou da opinião que para bom entendedor meia-palavra basta, preferi apenas escrever “quando eu faço o meu BI” !!!!!
    Simples assim…. como uma rosa sempre será uma rosa, mesmo que chamem ela de outra coisa.
    E tenho outra boa para você pirar: Num ambiente onde a palavra Business (Negócio) é pior que Valdemort (aquele que não pode ser nomeado), foi necessário mascarar o bom e velho BI – (Intelegência daquilo que não se pode pronunciar) em II ou I² ou I2 – (Inteligência Institucional).
    E precisamos marcar um Happy Hour !!!!

  2. Salve! :-) Obrigado por comentar! E é bom marcar logo esse Happy Hour, porque a Luz está para ser fechada de vez e irmos todos para Socorro! Daí só por vídeo-conferência, hehe.

    Pois é, você tocou em dois pontos críticos: a metonímia do termo BI e o aspecto Valdemort do assunto.

    Primeiro, eu vejo agora que entendi apenas parcialmente o que você quis dizer. Muito obrigado por complementar! De fato, você empregou BI no sentido clássico, de processo para ganhar conhecimento, o que detona meu argumento na raiz (aaaaaii…..)

    Eu parti de uma premissa errada, mas meu ponto permanece. Você é uma das pessoas mais esclarecidas sobre esse assunto, e por isso pode usar o termo elasticamente. Quando gente menos informada começa a abusar dessa elasticidade é que nasce a outra situação, na qual que meu amigo bateu em cima: desaparece “a grande função” do BI, que é servir de cérebro na organização.

    Tô vendo que ainda tem muita coisa para ser pensada…

    Já o aspecto Valdemort, não tem jeito: é preciso dançar conforme a música. Eu concordo com isso até certo ponto: negócio evoca troca e lucro, a meta de uma empresa. Mas nem toda empresa tem por objetivo um lucro monetário. Existem empresas que visam um “lucro” de resultados, ou seja, obter a maior quantidade/qualidade de resultados pelo menor custo possível.

    Até por conta dessa situação eu procuro escrever tanto “organização” quanto empresa. Quando eu preciso manter a generalização, ou é uma frase curta, eu uso só “organização”. Quando é um texto mais longo, para não ficar chato eu vou mudando entre os dois, ou mais alguma coisa, como companhia, negócio, firma etc.

    Mas é uma frescura. Um negócio é um negócio, um empreendimento de pessoas voltado para um objetivo: maximizar o retorno em função do gasto. Se esse retorno é dinheiro ou resultados, isso é só um detalhe, pois sempre, sempre, em qualquer organização busca-se evitar desperdícios e empregar os recursos da melhor forma possível, seja para manter-se vivo (lucro), seja por respeito ao dono do dinheiro – nós. ;-)

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