Pronto, lá vamos nós de novo! A bola da vez é Shadow IT, que é a organização de TI fora da TI.


Gartner: Shadow IT refere-se a equipamentos, softwares e serviços informatizados fora da propriedade e controle do departamento de TI de uma organização.

Wikipedia: Shadow IT é um termo usado com frequência para descrever sistemas de tecnologia da informação construídos e usados dentro de uma organização sem aprovação explícita. Assim como o termo Stealth IT, Shadow IT é usado para descrever soluções especificadas e entregues por outros departamentos que não o de TI.


Soa familiar? Deveria! Olhe esta notícia, de 2 de Fevereiro de 2016:


Gartner estima que as vendas mundiais de software de BI vai atingir US$16.9Bi, conforme as compras mudam do departamento de TI para as mãos de indivíduos adeptos ao auto-serviço. Gartner says $16.9bn BI market in last stage shift from IT to business


Este artigo discorre sobre a tendência de a operação das ferramentas para BI sair da TI e migrar para dentro dos departamentos que usam essas ferramentas. Como estamos em 2016 e a onda de Data Discovery já está passando, o repórter coloca as coisas em uma perspectiva suave comparado ao que foi 2015: “TI ainda tem um papel na captura e preparo dos dados para consumo pelos usuários de negócio”.

Cuma??? Li isso mesmo? “TI ainda tem um papel…”.

Nossa. :-O

Um ano atrás todas as propagandas de Data Discovery e outros quejandos berravam “livre-se da TI, acesse seus dados diretamente, sem precisar de ninguém!” Era praticamente a reedição da Reforma Protestante, agora para Inteligência de Negócios

Nada como um dia após o outro.

Eu até procurei um pouco de todo esse marketing anti-TI, mas não consegui encontrar. Começo a pensar se não vi coisas, ou se não entendi tudo errado.

À Sombra da TI

De volta à vaca fria, o ponto que eu queria enfatizar é que sempre existiu alguma independência entre os departamentos de TI e o restante da empresa. Nas pequenas empresas familiares, um departamento (ou até mesmo dois!) ficam concentrados em uma só pessoa, e o funcionamento da empresa depende das aptidões e talentos multidisciplinares de todos os empregados. Meu primeiro emprego, por exemplo, foi como assistente de vendas na ACATEC (nossa, ela sumiu…) e o trabalho usava uma mistura bagunçada de Word, Access, fax e e-mails. Aos poucos eu aprendi a usar o Access e evoluí o processo de trabalho, até ficar totalmente centrada no Access e eliminar 100% de papel (isso está no meu CV, hehe – e era 1998!!!) Nesse Access registrávamos o contato do cliente, abriámos propostas, mandávamos mala-direta etc. Eu era a TI, o BI, o Marketing E assistente de vendas. :-)

Depois eu fui trabalhar no SAS (graçasadeusaindaestálá!), uma empresa muito, muito, muito maior. Havia um departamento de TI, um cara para cuidar da infra e tudo mais…

… MAS TODO MUNDO ANOTAVA TUDO EM PAPEL!!

O escritório do SAS na maior cidade do maior país da América do Sul tinha uma rotina de trabalho mais manual que da pobre ACATEC. E o que eu fiz? Reconstruí o banco de dados em Access e automatizei o meu trabalho, claro. Mostrei para meus colegas e eles disseram que alguém já tinha tentado fazer a mesma coisa, e até resgataram o que foi feito, mas que não deu em nada.


Foi a primeira vez que eu me dei conta de que não podemos forçar uma boa ferramenta em qualquer uso. O que eu consegui fazer em um dia com Access eles passaram meses tentando, usando o próprio SAS, e não conseguiram. O fato é que o SAS não era voltado para aquela função. Daria para fazer – tanto que eles conseguiram alguma coisa – mas não teria dado tão certo como meu Access nem com todo conhecimento do mundo. E isso faz quinze anos!!


No final veio um mega-sistema da sede, nos EUA, via web, mas ainda não fazia tudo que o meu fazia – estava planejado, mas na primeira etapa era só um apoio para elaboração de propostas. Enfim, saí de lá para uma empresa que vendia software de automação industrial (SCADAs), que era parte de um grupo maior, que incluía uma software house para automação comercial. Era uma empresa nacional, chamada Aquarius, com alcance internacional. Um meio-termo, portanto, entre o SAS e a ACATEC.


Eu, de peixes, trabalhando na Aquarius. Piada pronta… :-P


De novo, operavam na base do papel, e-mail, Word, agendas particulares (de papel! Eu era um dos dois únicos caras com um Palm.) O que eu fiz? Adivinhou: saquei o Access do pacote MS Office, que todo mundo tinha, e reconstruí meu gerenciador de contatos/vendas. Desta vez meu trabalho era todo de campo, e por isso eu precisava visitar muitos clientes. Não tive dúvidas! Criei uma função de planejamento de roteiro. Assim eu poderia passar uma semana no escritório contatando os clientes e fechando agenda para, vai, o sul de Minas Gerais, e registrar tudo. No final eu imprimia um relatório e passava a semana na estrada, ticando empresa após empresa.

De novo, mostrei o que tinha feito em uma reunião da diretoria da empresa. De novo… está ficando cansativo, mas vamos lá…

De novo eles falaram “nossa, igual ao que estamos fazendo!” e me mostraram o que estavam desenvolvendo a coisa de ano ou pouco mais. Claro que eles estavam fazendo um produto para vender e não se comparava com o meu nem em funcionalidades nem em qualidade e aparência. O meu era um Access, manuseado metade por formuláros, metade por tabelas, enquanto que o deles era um aplicativo especial, com instalador, cliente-servidor, todo cheio de ícones bonitos e telas funcionais.

Mas mesmo assim eu os bati – cheguei antes no fim. Na verdade, acho que eu tinha acabado de recriar a idéia do ágil e não sabia. (Eu fazia pedaço por pedaço, para atender uma necessidade imediata.)

Excel-ente!

E esta semana, lendo por aí eu me deparei com o tal do Shadow IT. Ora bolas, eu sempre fui uma sombra de TI! Não quero nem nunca quis sabotar nada, sem contar que algumas vezes eu era a própria TI. Eu sempre tentava obter e adotar a solução oficial. Quando essa não vinha, ou não resolvia um mínimo dos meus problemas, eu partia para resolver eu mesmo.

A maior ferramenta de BI de todos os tempos.
A maior ferramenta de BI de todos os tempos.

Quando os projetos de DW e BI começaram a demorar muito, a frustrar os usuários finais, o que foi que aconteceu?

Eles começaram a contornar à TI! Não é à toa que a funcionalidade mais requisitada em TODOS os projetos de exploração e visualização de dados (aff… “projetos de BI”) é EXPORTAR PARA EXCEL!!! Porque assim cai em uma coisa que o usuário pode fuçar sozinho, sem ser barrado ou frustrado pela TI e pelos “donos” do projeto de BI.

Na minha opinião, foi essa atividade parelala, tocada à sombra da TI formal, que os fornecedores de ferramenta de BI decidiram alimentar. Eu sempre impliquei com todo aquele papo de vendedor, como “se conecta a qualquer fonte de dados”, “self-service!”, porque quase todas as ferramentas de BI, se não todas mesmo, conectam-se a quase todas as fontes de dados, ou ao menos ao conjunto dos bancos mais famosos. Isso nunca foi uma revolução.

A revolução, mesmo, foi o vendedor desviar da porta do departamento de TI e ir bater no departamento de vendas. Na minha opinião, as modernas ferramentas de BI, mais leves e de menor porte, vieram na esteira dessa mudança no paradigma de vendas, e não o contrário.


Eu não levei mais que alguns meses no SAS para chegar a conclusão que BI se vende na diretoria, não na TI. Mais tarde eu percebi que, de maneira geral, essa abordagem é um traço da cultura de vendas do SAS e por isso veio a mim tão rápido (e eu me achando esperto…) Apenas frequentávamos a TI para ter certeza que não seríamos sabotados por um gerente magoado ou por uma prima-dona dodói. Mas nossa mira era sempre o C-Suite, nunca TI.


Conclusão

Meu ramo é BI, e tendo a olhar só BI. Porém, esse movimento “Self-Service” para informatização existe em muitos outros campos. Quantos gerentes não usam planilhas e smartphones para cuidar de suas agendas, deixando o sistema de agenda corporativa para um papel de comunicação/interface? Ou quantos departamentos inteiros não rodam em sistemas locais, completamente separados dos sistemas oficiais da empresa? E quando essa situação surge, adivinha o que acontece? Punem-se os responsáveis pelo sistema paralelo e força-se a adoção do oficial? Não, muito pelo contrário! Não raro a TI oficial assume que o sistema paralelo existe e funciona e deixa de competir por aquele “nicho” local, dedicando suas forças a coisas que ainda precisam da ação oficial.

O termo Shadow IT para faladores de português pode induzir à percepção de algo sombrio, fúnebre ou fora-da-lei. Mas em português, quando ficamos por perto, mas não à frente, ficamos à sombra de algo ou alguém. É esse o sentido, na minha interpretação, do termo Shadow IT. A tradução mais adequada talvez seja TI Paralela ou TI Alternativa.

Ao observar esses fatos – a TI paralela por necessidade, conveniência ou comodidade – e a explosão do mercado de ferramentas, eu passei a acreditar que não estamos vivendo a era do BI Self-Service, mas a do BI Paralelo, do Shadow BI.

O que me leva à uma forçosa conclusão:


Não existe Data Discovery. Não existe Data Lake. Não existe qualquer-coisa-BI-self-service, como eu venho argumentando há algum tempo, aliás.

O que existe é um mercado de softwares para a TI Paralela, e Self-Service Business Intelligence é um desses sub-mercados.


Quando eu me sentei para escrever esse artigo minha visão era colocar Shadow IT e o movimento de BI Self-Service lado-a-lado e, por meio de alguns paralelos, questionar se o que estava acontecendo não era a ascenção da Shadow IT, muito mais que o crescimento do auto-serviço. Só que eu não estava preparado para o que eu descobri: como sempre, eu recolho algumas referências para alimentar meus argumentos1, mas eu encontrei uma extrema dificuldade (leia-se: uma infrutífera hora googlando sem resultados) para encontrar propagandas, anúncios, posts esgoelando sobre “como a ferramenta X vai te dar independência da TI”.

Ao invés disso eu encontrei declarações contemporizadoras, suavizando o embate entre TI e usuário pelo acesso aos dados. Uma situação praticamente impensável a até um ano atrás, ou menos.

Eu não acredito em ferramentas de exploração de dados totalmente dominadas por usuários de negócio – self-service, data discovery – porque isso demanda um conhecimento e habilidade fora do alcance de 99% dessa comunidade. Acho mais fácil acreditar em um departamento de TI paralelo, translúcido, oculto nas dobras do continuum espaço-tempo, digo, corporação-tempo.

No fundo, você sempre precisa tratar os dados, sempre precisa de profissionais que só vão ser encontrados no departamento de TI. Me parece que a que mudou não foi o poder, da TI para o usuário, mas sim o que é a TI, que saiu do departamento e foi para mais perto do usuário final.2

Ufa!

Até a próxima! ;-)


  1. O que me deixa aberto ao viés de confirmação, acusação da qual eu me declaro totalmente culpado. ;-) 
  2. O título é um infame trocadilho. Não deu para aguentar, perdão. 

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