Eu li um post sobre o perigo de se usar informações de sistemas transacionais para estabelecer a estratégia da organização, e achei muito legal. Inspirado por ele, e por sua coragem em chamar essa atitude de BD – Business Dumbness, hehe – eu resolvi compartilhar aqui minha opinião sobre outra dessas variações, na minha opinião, perigosas.

O que é Inteligência de Negócio? (De novo, não!!)

Definir BI é o mesmo que definir Deus: cada um tem a sua definição particular, pessoal e intransferível. Ocasionalmente, algumas pessoas concordam sobre entre si, mas é apenas uma coincidência – a quantidade de conceitos e definições é vasta, se não infinita. Um desses conceitos do mundo de BI é “Tempo Real,” que é “o BI feito em tempo real”, enquanto tudo está acontecendo. De cara: na minha cartilha, isso não existe.

Primeiro: a expressão “o BI feito em tempo real” carece de significado.

Como assim “BI feito”?? Inteligência de Negócio é uma disciplina de administração, não um tipo de BIscoito! Vamos postular que quem diz isso pretendia dizer algo como “são os relatórios e análises feitas sobre dados que estão entrando no DW em tempo real.” Já soa mais inteligível e possui algum significado.

Segundo: o que é que você conclui do lançamento de uma moeda?

Vou colocar de outra forma: você quer descobrir qual é a chance de, quando se joga uma moeda para cima e a deixamos cair no chão, a face da cara estar para cima. Beleza? Esse é o seu problema de negócio: estimar quando vai sair cara no lançamento de uma moeda. Volte à pergunta: que conclusão você chega se analisar o último lançamento, apenas? E os dois últimos? A partir de quantos lançamentos você pode ter segurança para afirmar que cara e coroa saem com a mesma proporção em lançamentos de moedas normais?

Não sei se ficou clara a questão: não se obtém nenhum ou quase nenhum conhecimento sobre o negócio analisando-se os dados que estão entrando agora, neste momento, enquanto as coisas estão acontecendo. Para entender o negócio você precisa de histórico, precisa ter passado pelos acontecimentos que afetam seu negócio. Não há praticamente nenhuma informação a ser tirada das vendas do último segundo, do último minuto, hora, dia. Eu não tenho uma prova matemática, mas você deve concordar comigo que essa é uma possibilidade razoável.

Case: Venda de Jogos de Celular

Em uma das turmas de Pentaho que eu ministrei na 4Linux eu tive um aluno de uma empresa que desenvolve jogos para celular. Seus jogos são vendidos online, num modelo comercial comum o bastante hoje em dia para dispensar uma explicação aqui.

Esse aluno colocou exatamente essa questão: ele disse que sua empresa precisava de BI Real Time (coincidência: BI RT) porque eles precisavam saber o que estava acontecendo para poder aproveitar as oportunidades. Oportunidades como oferecer um desconto-relâmpago em um jogo que está começando a gerar um volume de vendas razoável, e precipitar mais vendas ao baixar o preço.

Minha resposta foi: e como é que você sabe quando agir? Ele, o meu aluno, só conseguiria descobrir que uma oportunidade apareceu se ele conhecer o padrão de uma oportunidade. Sem entender o que os dados significam, ele continua sem saber nada! Para que ele possa montar uma monitoração em tempo real (o que não é só fazer um relatório) e com ela buscar sinais de oportunidades surgentes, ele precisa primeiro entender o que é uma oportunidade e como ela se manifesta. Ou seja, ele precisa rodar um projeto de Data Mining sobre uma base histórica e descobrir o padrão a ser buscado.

Conclusão

Como diria o padre Quevedo, “BI em tempo real non ecsiste!” Claro, essa é a minha opinião. Pode ser que amanhã eu perceba que estava errado sobre BI RT e tenha que rever esse post, mas até onde eu consigo ver, não há muita informação a ser extraída da análise em tempo real (ainda mais porque depois de um dia a informação ficou mais precisa e já não é mais tempo real.)

Até esse dia chegar, eu continuo acreditando que informação sobre o negócio depende de possuir dados analisáveis, e isso só se obtém acumulando histórico em um DW.

Monitorar o sistema transacional em tempo real, buscando micro-eventos que denotem oportunidades instantâneas é uma grande e poderosa idéia. Saber o que buscar, porém, não há como ser feito em tempo real, por definição.

É isso.

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5 comentários sobre “BI em Tempo Real

  1. Discordo um pouco do ponto de vista abordado. Ter uma menor latência na entrega dos dados não significa ignorar o histórico do DW. Em alguns mercados, como por exemplo na bolsa de valores, o tempo que uma ação deve ser tomada é muito curto. Não adianta analisar se algumas ações deveriam ter sido vendidas ontem… Mas isso não significa que os dados históricos serão ignorados, muito pelo contrário, eles serão utilizados para fazer comparações e análises de tendências dos dados que estão sendo coletados em “tempo real”.

    []’s

    1. Obrigado pelo comentário, Gustavo. Esse é justamente o ponto: existem opções melhores para trabalhar nesse cenário que um processo de ETL em tempo real. Para o caso da Bolsa, por exemplo, existem ferramentas que refletem a posição de cada papel em tempo real. O que agrega montar sobre esses dados um processo de ETL em tempo real? Quão “real” vai ser esse RT? Se, por outro lado, a intenção é detectar uma condição, a equação (derivada de um modelo) que indica essa condição é buscada nos dados históricos (um caso clássico de Data Mining) e idealmente implementado na ferramenta de monitoramento em tempo real. Dessa forma interpreta-se o momento a partir do conhecimento do negócio (criado com dados acumulados) e pode-se até manter uma validação do modelo em tempo real, para saber quando ele descolou.

  2. Concordo que esta é uma boa alternativa também. No exemplo da Bolsa, fazer o monitoramento em tempo real com base em um modelo/equação pré-definido pode até ser melhor devido à necessidade do RT ser bem próximo do real.

    Mas e SE no dia seguinte você perceber que, SE o modelo/equação do dia anterior fosse atualizado ao meio dia, com base nas informações coletadas pela manhã, ele TERIA encontrado um ponto fora da curva durante o pregão da tarde? Talvez seja tarde d+ e você já tenha perdido alguns milhões rs.

    O que eu acho é que, na medida do possível, o BI deve se aproximar do real time. Latência de segundos ou minutos é um extremo exagero para a maioria dos negócios, mas dias ou semanas também é bastante tempo para a maioria deles.

    1. Você entendeu. ;-) Enquanto não aparecer algo que justifique um processo de ETL em tempo real pesando sobre um banco transacional, mais os custos de gerar um relatório, revalidar um modelo em poucos minutos (não avaliar sua aderência!), um caso de negócio sólido, com claro ROI, BI RT vai continuar sendo moda tecnológica (e provavelmente empurrada por fornecedor desse tipo de ferramenta.)

      Bolsa de valores é um caso ruim para Data Mining – se fosse bom, todo mundo ficaria rico. Supondo que fosse possível aplicar modelagem preditiva à Bolsa de Valores, pense: entre descobrir que o modelo descolou com 80% de certeza (sabe-se lá a que horas) e ajustá-lo, você leva quanto tempo? Um minuto? Uma hora? Até o fim do pregão? E quanto dinheiro confiaria a uma coisa feita tão a toque de caixa? Um milhão de reais?

      Nada contra baixa latência, muito pelo contrário. Você conhece algum caso de BI em tempo real que deu resultado superior a um normal? Até esse caso aparecer, é tudo especulação. ;-)

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